Artur Gonçalves

Tuesday, April 04, 2006

Um certo Portugal abismado

O João Paulo Queiroz, professor assistente de Cultura Visual na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa, aceitou um pedido que lhe dirigi e escreveu-me uma pequena análise das capas dos discos do Artur Gonçalves.
Com a devida vénia e agradecimento, aqui deixo as suas palavras.




Vira da Minha Terra
Ao trocadilho brejeiro, no ênfase dado à placa, associa-se a irrealidade de haver «Vira» em Coina. Diz-se então algo bem diferente do que é mostrado – o cantor, prazenteiro, sobre a placa toponímica.







Dor de Cotovelo
Novamente o trocadilho faz-se com a ajuda da metáfora visual: não se trata de dor de cotovelo, mas de dor do corno vicentino que o cantor encara de soslaio.






Ser Fascista
Aqui o contexto contrário faz a ironia: o «ser fascista», insulto gasto desse tempo, é a palavra de ordem impossível, e mais ainda no cenário mostrado.






Não Passes Mais com Ele na Musgueira
É o estereótipo do macho sonhador, marialva, ocioso, domingueiro, a fumar. O código da roupa está em franca oposição ao cenário, fazendo deste mais um contraste irónico.







Vamos Dar Caça à PIDE
A ironia repete-se na encenação: vítimas alinhadas, prontas a abater. O justiceiro, de branco, dispara num esgar. A sua arma é de brincar.






O Telegrama da Minha Sogra
O burro é ancorado pelo título à «sogra». Ecoam ainda os contrastes irónicos entre o que se espera de um cantor de atitude romântica. Um galã, de burro, num cenário onde não falta o estrume, contrasta com o cliché do «cavaleiro na praia». Outras rápidas associações são possíveis, como o «jumentinho» do Domingo de Ramos.






Vira das Bananas
No título, o falso «vira» faz a ancoragem do duplo sentido.






Tira, Mete e Tira
O personagem escapa, com dificuldade, aos apelos femininos. No instantâneo imagina-se, por metonímia, toda a cena: o oposto do expectável do macho perante a «loira» carente. O registo é o do género das fotonovelas da época, com o código do excesso retórico na mímica do rosto e das mãos. Não falta a aliança. O «tira» faz rima e contraste com o «vira» de outras capas.






Entre os tropos, a ironia define-se como o extremo da metáfora: enquanto se exprime uma coisa alude-se ao seu oposto. O mecanismo funciona no eixo do paradigma, das associações de ideias – onde não há temporalidade, antes o sistema das diferenças.
A metonímia, por oposição, funciona por contiguidade, no eixo do sintagma, do tempo, da narrativa.
Nas capas de Artur Gonçalves encontram-se estes tropos, com a metonímia a predominar em Não passes mais com ele na Musgueira e em Tira Mete e Tira. Nas restantes tem-se a o domínio da metáfora na forma extrema da ironia. Em Vamos dar caça à PIDE há ambivalência de ambos os tropos: na elipse da história, a metonímia, e na falsa arma, a metáfora.

O mecanismo do duplo sentido, associado à ironia, é o mesmo que se usa no Teatro de Revista. Os significantes são os do momento, do quotidiano – os mais «inflamados». São reconhecíveis para melhor serem reapropriados. Na reapropriação, as relações antes convencionais, isológicas, são destruídas. Os segundos níveis de significação são as conotações múltiplas mas convergentes na alusão irónica. O jogo da descoberta das isotopias, dos significados ocultos, é gratificante: «percebe-se onde se quer chegar».
Nas entrelinhas dá-se uma realidade cifrada por trás da expressa.
Esta articulação retórica, uma vez identificada, é prevísivel e redundante.

O mesmo não se pode dizer do nível de conotação último, o ideológico. A «fala» manifesta a «língua», por metonímia, e a língua acusa a mudança das significações. Neste nível lê-se a inflação sígnica, a luxúria iconoclasta, a expressão a quatro cores da liberdade. «Artur Gonçalves» c’est moi. No conforto da distância as capas dos singles perdem a sua circunstância e adquirem o tom metafórico da poesia visual: um certo Portugal abismado.

João Paulo Queiroz, 31 Março 2006

Monday, April 03, 2006

DOI OU NÃO DOI


"Eu fui um pé descalço na Mouraria e a minha mãe vivia numa barraca em Campolide. Eu gostava muito de fado mas não sabia cantar. Só que como eu era muito brincalhão e estava sempre a reinar e um dia disse: Eh pá, vou cantar".

Artur Gonçalves, Abril de 2006


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QUERER

Artur Gonçalves, sobre os seus espectáculos:

"Eu faço encavacar as pessoas sem querer. Quer dizer: faço por querer, mas é sem querer. É que eu aponto para as pessoas: eu estou a cantar para a pessoa como se aquela história fosse com ela, com este, ou com aquele".

EU, DANADO

"Eu não canto no palco, canto na plateia, ando ali com o microfone por todo o lado. Há mais contacto, as pessoas gostam. E fico contente por gostarem de mim. Mas também há quem não goste, há quem não goste. Foram chamar-me a casa: "Ó Artur, por causa das eleições das autárquicas, não sei quê, não sei quantas, vai haver aqui na sede uma sessão de fados". Eu fui lá e cantei "Quando fugiste", da piloca. Duas pessoas armadas em finas, levantaram-se a fazer queixa. Então, o que é que tem de mal? Um homem desesperado, quando anda com os copos, diz muitas coisas. Eu cantei com uma interpretação desesperada, como se fosse comigo - eu danado, eu a viver aquilo. Uns até amandaram a cadeira para trás".

Artur Gonçalves, Abril 2006

SOPA

"Às vezes ainda me pedem para actuar em certas festas a favor disto ou favor daquilo. Eu não tenho coragem para dizer que não. Há sempre aquele bichinho dentro da pessoa - gosto de cantar.
O que dá mais êxito é o que não está gravado - "Os sindicatos" - e que ataca o PCP e o PS.
Eu só estou a atacar porque os trabalhadores descontam, e quando têm problemas só têm assistência de palavras e não têm panela de sopa nem tacho para o guisado. Só têm palavras: "Pá, não senhor, vocês sejam unidos e tal e tal" e quando aquilo dá para o azar (sacode as mãos), os trabalhadores vão desempregados para casa e eles vão lá para a associação deles. Não há nada, não há subsídio, não há ajuda, não há nada".

Artur Gonçalves, Abril de 2006

VAMOS DAR CAÇA À PIDE

Artur Gonçalves: "Esse disco é de 74, depois do 25 de Abril. A fotografia foi ali no Martim Moniz e é rapaziada conhecida da Mouraria. Eu disse: "Eh pá, é só para estar aí um bocado, façam de conta que são gajos da PIDE". Eu não cheguei a ter chatices com a PIDE mas a minha mãe teve - e depois eu danei-me quando cantei".

Ouçam aqui:


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Saturday, April 01, 2006

VIRA DA MINHA TERRA


É o disco mais famoso de Artur Gonçalves, apesar de não ser o seu melhor. Está a milhas do seminal "Vamos dar Caça à PIDE", por exemplo. Todavia, um vasto mosaico de artistas da Música Popular Alternativa já ousou fazer versões desta obra, prova cabal da influência de um cantor pioneiro no género.
"Essa fotografia é mesmo à entrada da Coina", assegurou-me Artur Gonçalves. Ou seja: não há ali manobras de Photoshop. "Para a versão em cassete, fui lá outra vez e voltei a tirar uma fotografia, mas dessa vez estava sentado com uma cana de pesca a ver se pescava alguma", revela.
"Isso foi muito conhecido. No top de Itália ficou à frente da Amália".




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CHULA DOS PARTIDOS


Artur Gonçalves exterioriza o seu profundo desprezo por todos os partidos. Da esquerda à direita, Artur desata à porrada e não poupa ninguém. Será esta uma música anarquista?


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NÂO PASSES MAIS COM ELE NA MUSGUEIRA


Eis o primeiro fado de Artur Gonçalves. Inspirado numas quadras do Carlos Conde, foi escrito à mesa do Café Paladium e gravado em 1973. Na entrevista publicada hoje, 2 de Abril, no Jornal de Notícias, Artur Gonçalves explica a razão pela qual esteve quase a ir a tribunal por causa desta letra. Se acaso tiverem interesse nessa história, leiam o jornal.

Entretanto, aqui fica um esclarecimento: esta foto, afinal, não foi tirada na Musgueira. Artur desmistifica: "Isso não é na Musgueira, é ali perto da Avenida de Ceuta, junto dos autocarros para a Costa da Caparica. O fotógrafo disse-me: Eh pá, escusamos de ir para Musgueira só para tirar uma fotografia - vamos ali a umas casas velhas. Quando lá cheguei disse-lhe: Hey lá! Não podias ter arranjado melhor!".
E como lá na Musgueira ninguém conhecia, perguntavam todos: "Eh pá, mas que raio de barraca é esta aqui na Musgueira?"



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TIRA, METE E TIRA


A melhor capa de toda a história da música Portuguesa? Sem dúvida.
A foto, confessou-me o Artur, foi tirada em plena casa da mulher deitada na cama. "Ela não era exactamente puta", disse-me o fadista. "Não exactamente?", questionei. "Era daquelas alternadoras, dos bares, das que fazem companhia aos clientes", elucidou-me. "Esse cabelo era mesmo meu", asseverou. E o casaco, hein? É pintarola, ó Artur. "Esse casaco foi comprado na Praça da Figueira, logo a seguir ao 25 de Abril; entrei numa loja, vi esse casaco e disse "Hey pá!".


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SER FASCISTA


Artur Gonçalves: "Este casaco de veludo foi comprado em Amesterdão em 1974. Dei lá muitos concertos. A KLM davam-nos os transportes e as associações pagavam os hoteis. Recebia muito bem por cada espectáculo: era o dobro do meu ordenado. No meu emprego recebia oito contos e tal; nos concertos da Holanda pagavam-me entre 15 a 20 contos".

Definitivamente um dos seus melhores fados. Artur vintage.


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BEBE VINHO, MEU BEM, BEBE VINHO



Admito: este é o único EP que me falta na colecção. Esta gravação só foi possível porque o o meu amigo Artur Gonçalves me emprestou o seu (próprio) disco durante uma semana. Aqui fica o lado B: "Bebe vinho, meu bem, bebe vinho".

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A TUA FOME


O amor segundo Artur Gonçalves, um ultra-romântico.
Provavelmente o único fado do planeta com o patrocínio da Compal.


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A TELEVISÃO


O EP "O telegrama da minha sogra" tem uma pérola chamada "A televisão".


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BAIRRO ALTO E SEU ENTULHO


Um fado sobre o Bairro Alto e a sua fauna nos anos 70. É incrível como a letra permanece actual.


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A BRONCA DE MOSCAVIDE


A malta de Moscavide apanhou um PIDE e está indecisa entre queimá-lo vivo numa fogueira ou passá-lo a ferro com o tractor do Zé Galo.

Artur revela: "A Bronca de Moscavide foi uma notícia. Foi mesmo verdade. Eu aproveitava as notícias para brincar com as notícias. A notícia vinha de uma maneira e eu dizia a mesma notícia com palavrões mais rascas. Mas esta liguagem era aceitável".

Ouçam


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A ADIVINHA

Regressando ao meu EP preferido ("Vamos dar caça à PIDE"), aqui deixo uma "Adivinha".

Artur: "Essa letra foi tirada já não sei de onde, não eram versos nem quadras, eu é que a enquadrei. E armei barracas em muitos sitios porque punha público a tentar adivinhar o último verso. Eles pensavam sempre o pior. Foram mesmo muitas barracas".


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DOR DE COTOVELO


Cotovelo?

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AS CASSETES


A história deste fado é real. Tudo se passou no Outono de 1973. A equipa do Sporting deslocou-se a Inglaterra para jogar a primeira-mão de uma eliminatória da Taça das Taças contra o Sunderland. Ao que parece, três jogadores foram apanhados a gamar cassetes - e já me disseram que tais proezas de jogadores portugueses no estrangeiro não eram assim tão raras quanto isso. Hoje, os tempos são outros: qualquer jogador tem o seu leitor de mp3 e temos as claques para prosseguir semelhante tradição do luso-larapianço.
Ouçam esta letra com atenção. É o único fado da história que rima "What is that?" com "Cassete".
Uma curiosidade: Artur Gonçalves é sportinguista. Eu nem por isso.


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